quarta-feira, 7 de julho de 2010

cena de filme

A peculiaridade dos lugares e suas pessoas me
causam um encantamento que tento transformar
em palavras, mas estou certa que fracasso.
Amo as palavras, mas ainda não encontrei palavras
suficientes que exprimam tudo que sinto.
Cada novo lugar em que estou, passa, também, a estar
dentro de mim. E em instantes de tempo, cena a cena,
me mostram o cenário dos lugares.
E de cenário em cenário, observo as cenas. Vou seguindo
viagem em um ônibus, montando meu filme em uma tarde
ensolarada de outono, na rica e diversa caatinga.




Em Iaçu, pequeno município da chapada diamantina,
contemplada por chapadões em todo seu entorno,
o cenário é a velha fábrica de cerâmica, de frente para
uma rodoviária azul, do tamanho de um quintal.
A fumaça sobe de suas chaminés. As duas moças, de
tamanhos iguais, vestem chapéus idênticos, descem do
ônibus e agora caminham, ritmicamente, em direção à
fábrica, as chaminés, a fumaça e as montanhas. Cena de filme.
Um cachorro, franzino e cor de mel, corre em meio aos
cactos e ao vazio da habitação, imerso em solidão, como a garça,
que logo ali na frente, contempla o lago. Cenas bucólicas de filme.
No povoado, lixos, bandeirolas e pessoas, mostram a cena que
perdi, e as histórias do são joão, que aconteceram ali.
O ônibus, agora, balança como o quê, naquelas estradas de
asfalto tão desgastado, que antes fossem, apenas, as velhas
estradas de terra batida.
Meus garranchos persistem, para que não se percam
na memória, as tão belas cenas.
Dentro do ônibus, o violeiro, de camisa amarela, barba aparada
e óculos moderno na cabeça, junto com sua viola branca, fazem
a trilha da viagem e assim, dispensam a montagem posterior da
trilha do filme. Esta, é a cena do homem-amante, voltando para
a casa abandonada. Onde a moça foi parar? É o mistério do filme.
As músicas de amor, cantadas com vigor e emoção, demonstram,
no mínimo, muita dor.
As árvores de troncos tortos na sombra do dia que se vai, em meio
a estrada, que agora é só pó e terra, me revelam um novo cenário.
Nele, um homem na bicicleta leva sua espingarda nas costas,
revelando a cena da caçada. Cactos, cactos e cactos, gigantes por
natureza, pouco a pouco se perdem na luz, que é cada vez
mais é sombra.
O outro na bicicleta, leva sua lenha, anunciando o breve fogo.
O sol poente, cria a sensação de um sol que se põe, também, dentro de mim.
Faz-se necessário um momento de silêncio interno e de preparo para entrar
no tempo da noite, no tempo da não luz, onde não se filma mais nada.
E se entra no tempo, então, da reflexão, pois filme na tela é
imagem e imaginação. Mas aqui, é repleto de verdade, cheiro,
textura e gosto da vida.
E a interpretação, não são de atores que representam seus papéis.
A interpretação é minha, tentando ler cenas, imaginando os fatos.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

E a menina sonhou...

Sonhou que estava num campo, cheio de árvores.
Poderia ser um sítio ou uma fazenda, co-habitada
por parentes, amigos e desconhecidos.
Quando a madrugada adentra, alguém percebe que no céu
há 5 mísseis gigantes que se aproximam da terra.
Nosso futuro está condenado. Não há o que se fazer, só a espera
do momento em que tudo acabará. Muitos estão perplexos
e imóveis observando os mísseis. Hipnotizados em olhares perdidos.
A notícia, logo, se espalha, e quem dormia começa a se levantar.
Os olhares para o céu se multiplicam em instantes, num
movimento quase de onda, quase que obrigatório.
Inexplicavelmente surge um buraco, que não é propriamente
um buraco no chão, se parece muito mais, um buraco no espaço.
E neste momento surge a escolha. Quem entra no buraco,
antecipa o fim. Tudo se acaba nele.
Quem ainda tem esperança, e não se rende, não entra.
A menina, observa várias pessoas se jogando, desesperadamente,
no buraco, e sem pensar muito, lá vai ela...
Mas seu corpo-espírito é desviado.
Ela não pode. Ela não tem escolha.
Tenta novamente e, novamente e, novamente.
Não pode. A menina, então, percebe que precisa ficar.
Para ela, ficar é o único caminho.
Para ela, não existe desistir.

sábado, 20 de março de 2010

Reflexões de uma mulher de 30 sobre o amor

O fato é certo.
Nós, mulheres, passamos a infância ouvindo histórias
de príncipes encantados e finais felizes, para depois
passar o resto da vida desconstruindo esse sonho
cristalizado de um imaginário infantil.
É claro, se soubessemos melhor o significado das
palavras aos 7 anos de idade, saberíamos que encantado
é o que não se concretiza, não se toca, só se idealiza.
É claro, se entendessemos de política aos 13, já reprovaríamos
a monarquia e todos os seus desdobramentos e privilégios
burgueses. Odiaríamos os príncipes.
Finalmente aos 17, já começamos a perceber que felizes são
os inícios, os finais são geralmente trágicos.
Aos 20, infelizmente, as mulheres já tiveram que lidar com
algumas desilusões, mas ainda são imaturas. Levam tudo a
ferro e fogo e desperdiçam vitalidade.
Dos 20 para os 30 é um salto impressionante ou, talvez, expressionante.
Os 30, sem dúvida, marcam essa transição para uma percepção
madura do mundo e do meio.
Já sabemos muito (a duras penas) sobre relações e
gastamos menos energia, usando mais a inteligência.
Já sabemos o que queremos e porque queremos.
Já sabemos o que não queremos e porque não queremos.
Porém, por puro descuido, ainda nos permitimos umas
paixões adolescentes, mas encaradas com outra visão,
com senso de humor e com a delícia do prazer anunciado.
Sim, já somos profissionais, mães, artistas, filósofas,
viajadas e tudo aquilo mais que a imaginação e a força de
uma mulher de 30 nos permite viver.
Por fim, para que os homens saibam o que queremos e
não nos acusem de não socializar informação, elaborei
uma listinha básica em tópicos didáticos:

- Queremos homens de verdade. Com defeitos e qualidades
que nos instiguem a viver melhor, a crescer, a dividir e construir.
- Nos homens de verdade vale cabelo branco, marca de expressão
e uma barriguinha de leve (não abusem nesse quesito !!!).
- Homens de verdade choram, porque sabem o valor do choro.
- Homens de verdade são os homens companheiros.
- Homens de verdade dizem a verdade.

E saibam:
- De complicação o mundo já ta cheio. Descompliquem,
simplifiquem e nos lembrem disso também, porque
às vezes esquecemos...
- Poesias são lindas. Canções também. Mas se o ato não condiz, de
nada servem. Guardem para si, reflitam e aprendam sobre elas.
-Se não sabem o que querem, estão proibidos de envolver
alguém em suas confusões. De castigo, no quarto, sozinhos
até descobrirem, OK ?
- Cobrar é uma coisa muitoooo chata, é de tirar o humor
de qualquer uma. Não nos obriguem a fazer isso, por favor.
Queremos usar nosso tempo de maneira mais criativa e
produtiva.
- Temos TPM e somos sensíveis demais aos estímulos que
o mundo nos apresenta. Quando gritamos e esperneamos
são os momentos que mais precisamos de ajuda, estamos
frágeis. Boa oportunidade para vocês cuidarem da gente.
- Olhar demais para o lado causa torcicolo e gera irritabilidade,
manchas vermelhas e reações descompensadas na companheira.
O ministério da saúde adverte: pica perdida pode ser achada,
morta !
- Educação, diálogo e cuidado são fundamentais, SEMPPRE !!!
- O bom sexo idem !!!
- As melhores conquistas são aquelas bem simples
(e tão grandes !) que conseguimos dia após dia:
A conquista de momentos felizes...
A conquista da cumplicidade...
A conquista do bom humor...
A conquista da saberdoria...
A conquista da dignidade...

...E claro, vamos de mãos dadas, que fica bem mais gostoso...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Vergonha ?!!


Postagens escassas = Tempo escasso !
Fórmula simples e fácil de decorar e,
mais fácil ainda de deduzir.
Até pessoas que, como eu, andam com a memória
bem comprometida, quase
que batendo as botas, vão se ligar.

Pois bem, volto hoje para escrever sobre a vergonha.
Eu que sempre morri de vergonha,
e sentia mais vergonha ainda de sentir vergonha,
hoje acordei pensando nela.
AFFFFF, perdi a conta das vezes
em que fiquei vermelha de vergonha na vida.
E dai, sentia a pele em chamas e isso me dava mais
vergonha, num ciclo que em instantes,
se faziam séculos.

E criei ódio por ela, que me acompanhava
nos trabalhos apresentados em sala de aula,
nas paqueras, nas emoções mal controladas,
nas situações que não sabia pra que lado correr.
Ainda não sei lidar totalmente com ela,
mas a idade, com certeza, me deixou
mais cara de pau.
A primeira vez que achei bonitinho ter vergonha,
foi quando um professor disse que as mulheres
que ainda ficam com as faces rubras estão
cada vez mais raras.
Pode até ter um certo toque machista a frase,
mas valeu pra eu me sentir rara...rs, mas
também, especialmente, para eu ver a vergonha
com outros olhos.
E hoje, talvez mais madura, ou menos medrosa
(observe que o mais madura não significa
maturidade plena e o menos medrosa
que eu não tenha medo de mais nada, apenas
melhorei. Eu acho...rs), minha leitura
é que um tanto de vergonha não faz mal
a ninguém.
Quando vejo a maneira que se comportam
políticos, banqueiros, grandes empresários,
alguns artistas ou mesmo pessoas
comuns ao nosso dia-a-dia, lamento
muitas vezes a ausência de vergonha
em suas vidas, pois descobri que a
vergonha dá o tom da ética e põe
limites comportamentais.
E, como sou generosa, sinto daí a
vergonha alheia.
Sinto vergonha daquela mulher
que veste uma saia minúscula,
sobe no salto fino, bebe todas
e mostra as calçolas,
Sinto vergonha das cantadas
que os "malas mens"
passam nas mulheres,
com esperança que dê
em alguma coisa...
Há algumas semanas, aqui
em Salvador, teve uma palestra com o
superintendente do meio ambiente
da prefeitura.
Cara, senti vergonha por ele.
Um senhor, que deve ser avô,
não tem vergonha de não ter
palavra, de não poder se posicionar,
de olhar pra gente com a cara mais
deslavada do mundo de quem deve,
nega e não tem honra, senti tanta
vergonha por ele.
E assim, vendo tudo que
já vi nessa vida, quero hoje
agradecer toda a vergonha
que me cabe nesse mundo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

um causo de morte

Depois de tempos sem escrever em meu blog,
quase engolida pelo cotidiano, volto por um
causo que não podia deixar de contar.
Peço desculpas de antemão por escancarar o enterro
do morto em questão, porque era moço decente e
sorridente, moço de bom coração.
Mas o causo é muito bom e apesar de morte sempre
ser triste, essa teve pormenores tragi-cômicos que
mereciam ser narrados.
O causo aconteceu no interior de São Paulo,
e me chocou porque trouxe pra perto de mim
a gripe suína, que pensava estar tão distante,
no mundo negro das mídias sensacionalistas.
Agora posso dizer que conheço alguém que morreu
da gripe dos porquinhos.
Bom, ouvi a história pela ex-mulher do sujeito,
cujo casório vi consumar há anos atrás e, situando o leitor,
acabou pela língua felina da sogra, informação essa
importante pro desenrolar da história.
Sei lá se por destino ou sorte, nunca senti na pele o poder
da intromissão na face perversa dessas mães
desequilibradas em relação aos filhinhos,
que se junior então, diz a estatística que aumenta
a influência na relação conjugal,
e está montado o inferno matrimonial.
No caso do falecido em questão, mamãe estava de plantão,
estragando tudo o que é relação.
E minha amiga, a ex-esposa e a ex-odiada pela sogra,
no velório se tornou o ouvido para jararaca despejar
todo seu veneno falando mal da atual, que estava
em prantos pelo amado, agora ali, estatelado.
Pois bem, diante dos fatos de morte, e do mistério H1N1,
a pedido da família foi feita a necrópsia no morto,
que pesava mais de 150kG e por conta do peso,
acabou mal costurado pra voltar pro caixão.
A certa altura do velório, os líquidos do falecido
começaram a escorrer e os encarregados do defunto,
pra evitar constrangimento geral da nação,
depressa foram tentar colocar o mesmo,
numa outra posição. A tentativa era,
controlar o escoamento e evitar que a meleca,
que já estava nos pés da mamãe, rolasse pelo chão.
Mas, por falha técnica e excesso de peso do morto,
perdeu-se o controle do caixão, que de forma certeira
atingiu a boca da mãe, arrancando-lhe um dente.
Fica a dúvida, se o morto deu seu jeito de se vingar
da língua maldita da mãe ou se foi apenas um
acaso recheado de ironia.
O fato foi que o filho conseguiu que a mamãe,
ao menos no enterro, ficasse calada as custas da
falta de dente e de sua boca inchada,
deixando finalmente em paz, suas ex-amadas.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Tostines

Meu olhar-percepção-pensamento
aguçados me deixam mais triste
ou minha tristeza aguça
meu olhar-percepção-pensamento?

Cata-Vento

Na contramão dos caminhos,
gasto toda minha energia
pra alimentar meu rodamoinho,
e ver esta energia voltar a ser vento.
Ainda encontrei Sancho Pança,
desculpei-me por abandonar o sonho,
mas cansei de lutar com dragões.
Dulcinéia desceu da torre e ninguém
foi buscá-la.
Logo ali na frente, sorri quando percebi
meu vento captado no cata-vento de uma
pequena mão.

As botas estão na ativa

Essa semana encontrei as botas, e agora sei, elas continuam na ativa.
A temperatura anda quente lá fora, mas as botas brigam para não
ficarem na sapateira.
Reparei bem nelas, pra perceber o quão desgastadas estão,
afinal, daqui a pouco, já faz um ano que as acompanho pelas ruas.
E sim, reparei no couro mais macio, levemente desgastado, uns riscos brancos.
Elas envelheceram nesses tempos, mas continuam dispostas.
Acordam cedo para proteger uns pés que vivem num
prédio aqui perto, pegam ônibus e estudam na faculdade de arquitetura.
Dessa vez, acompanhavam uma saia preta e uma blusa qualquer.
Por onde anda o fiel companheiro, o vestido xadrez?
Estará furado, remendado? Será que foi doado?
Ou somente conta os dias para sair do armário?
Esperemos.

terça-feira, 3 de março de 2009

Parte 3 - O Carnaval

Sai de Salvador com seu famoso carnaval, para ir à sampa trabalhar de jurada no desfile das escolas de samba.

O carnaval de São Paulo tem suas origens a partir do Samba de Bumbo, que vem lá das senzalas.
E foi se transformando e se assemelhando mais ao carnaval do Rio, para ter mais apoio financeiro da prefeitura e mais visibilidade no carnaval do Brasil.

Mas ainda guarda peculiaridades na organização, normas e nos tipos de samba.
E é um carnaval corajoso, a verba é em geral 10 vezes menos do que a do carnaval do Rio (5 milhões),e é lindo, as fantasias e alegorias melhoram ano após ano.

E pra gente que trabalha é um trampo maravilhoso, mas complicado.
Sabemos da competitividade das escolas e isso traz uma marcação ferrenha em cima do nosso trabalho.
Os presidentes das Escolas de Samba mal sabem o quanto que muitos de nós, jurados, sofremos para penalizar as escolas. E falo isso por mim e por comentários de vários colegas.
Quantas vezes na noite ficava torcendo para elas não cometerem erros, para elas brilharem.
E quando uma escola passa perfeita, como foi a Mocidade esse ano - a campeã do desfile, é de arrepiar, é emocionante. Vibramos também.
Se eu pudesse gritaria para todos os presidentes: -Não é bom tirar nota, não tenho nenhum prazer sádico com isso, pelo contrário, faço isso triste e por justiça a escola que não errou.

Os presidentes querem um campeão (e cada um quer sua escola nessa posição, é claro), a competitividade existe e alguém precisa estar lá julgando para haver ganhadores. Parece óbvio, mas não sei se todo mundo percebe isso. E as regras, são eles próprios que estabelecem.

Vida de jurado não é mole não.
Já entramos na avenida vaiados, como se fossemos os inimigos do carnaval.
Sabe, jurado tem que ter duas mães, uma para ficar na da boca do povo e a nossa que mantemos guardadinhas em casa. Avisei a minha antes da apuração para estar preparada e disse que iam xingar a outra, que não era ela não...rs.
Meu tio logo depois que a torcida da Vai-Vai gritou para mim filha da puta, ligou pra minha mãe e disse: - viu como vc tá famosa, tá na boca do povo! Ainda bem que a família tem bom humor.

Adoro os sambas da Vai-Vai, o desfile da Gaviões, duas escolas que precisei tirar nota, e foram lindas. Amei a criatividade deles, o desfile todo. Mas ambas escolas cometerem pequenos deslizes que precisaram ser apontados, e é só isso que a nota reflete.

Não é bom ser a estraga prazer. Sabemos o quanto as escolas se preparam, investem tempo, sentimento,dinheiro, comunidades inteiras se dedicando de corpo e alma. Investem muito no desfile, que em geral são lindos mesmo!
Não sou filha da puta!!!! Apesar de no fim, até achar graça da manifestação, não é de sacanagem nunca, que tiramos nota.
E queria que todos soubessem que só avaliamos os critérios que foram desenvolvidos por eles prórpios. Ninguém quer fuder escola nenhuma.





























O desfile das campeãs foi marcado pela insatisfação com notas de alguns jurados.
Meio tragi-cômico.
Não pouparam esforços para demostrar o que sentem. Não sei se esse é o espaço, e se é a melhor forma de diálogo, tiraram a beleza e a leveza do carnaval, mas enfim, é a liberdade de expressão, a deles, na avenida e a minha, aqui nesse blog.

Parte 2 - Salve Yemanjá!


Fiquei emocionada. Foi a primeira vez que consegui passar a festa de Yemanjá aqui em Salvador. Com muita expectativa esperei esse dia 2 de fevereiro, pra homenagear minha mãe-Yemanjá, protetora dos mares e mãe de todos os orixás.
Segui orientação de amigos, que disseram que a homenagem melhor de ser feita é logo cedo, antes das 8 da manhã, quando o clima ainda está leve, antes dos foliões e da bebedeira que toma conta da festa.


Impressionante como as festas na Bahia acabam
ficando todas com a mesma cara do carnaval.

Assim, cedinho lá estava eu. A fila para mandar a rosa dentro da cesta no barquinho para alto mar é enorme, já nas primeiras horas da manhã e assim segue durante o dia todo. Preferi fazer a minha maneira, jogando minha rosa direto e prestando meu devotismo a essa figura tão simbólica de nossos mares. Me arrepiei toda, realmente é uma energia que não se explica.












Essa festa de Yemanjá tem aspectos interessantes, pois é a única festa de uma orixá que também é comemorada, como são festejados os santos católicos. Além de ser uma figura mitológica dos pescadores, Yemanjá está presente fortemente na Umbanda e Candoblé, mas é um orixá que caiu nas graças e simpatia de boa parte da população, independente da religião.


Nas areias, as tendas de candomblé para garantir os ritos e a estrutura necessária para oferendas e devoção, através dos altares, ervas etc. Logo que cheguei, um homem de uma das tendas perguntou se eu queria a benção de ervas, disse que sim, e ele fez a tal benção e depois queria 10 reais. Desculpei-me e não dei, odeio essas surpresas de valor no final. E aprendi - nada é de graça, nem a benção.
Mas fora isso, a festa deles é uma festa linda, simbólica, comandada pela energia dos atabaques.

Meio da manhã as ruas já estão tomadas por completa. O Comércio local vai de rosas, presentes para a rainha do mar e comidinhas e bebidinhas aos montes. Assim, como o passar do dia, mais bêbados se encontra pelo caminho e pior vai ficando a qualidade das músicas.

Mas para os de bom gosto, tem refúgios por perto para garantir o nível do som.

Como bióloga, sempre tive a preocupação com “os presentes” mandados para o mar. Presentes que incluem bonecas, pentes, espelhos, perfumes com frascos, sabonetes. Sabemos o quanto isso interfere no ecossistema aquático e que essa necessidade de materizalização é muito mais humana do que do orixá.

Esse ano teve uma iniciativa muito bacana e corajosa do Instituto Nzinga de Capoeira Angola que foi bem legal, deram uma triada nas oferendas para ir menos lixo para o mar. Com o slogan "Yemanjá protege a quem protege o mar” começa a mudança de hábitos culturais antigos e enraizados. A campanha tem que ser feita com cuidado, porque mexe na crença de um bocado de gente,
mas tem que ser feita, para que Yemanjá não morra no meio do lixo que vai pro mar.

Salve Yemanjá!!! Desta vez a frase vai no duplo sentido!



























quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

As festas de fevereiro – Bahia, Terra de todos os santos. Parte 1 - XIV Festival de Verão Ratha-Yatra














O festival de Ratha Yatra é o festival para Consciência de Krishna.

O Ratha-yatra, ou o das carruagens, tem sido festival
celebrado na cidade santa de Jagannatha Puri, Índia, por
milhares de anos, tornando-o uma das celebrações religiosas
mais antigas do mundo.

Em 1968, o fundador-acharya da ISKCON, A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, organizou na cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, o primeiro Ratha-yatra do Ocidente. Hoje em dia este antiquíssimo festival religioso é realizado todos os anos em diversas das maiores cidades do mundo, incluindo Nova Iorque, Los Angeles, Washington, Londres, Paris, Zurique, Calcutá e Sidney.

A procissão de Ratha-yatra tem como modelo o milenar festival do mesmo nome em Orissa, Índia, e apresenta três carruagens belamente ornamentadas, pesando cinco toneladas e medindo dezesseis metros.. Elefantes decorados, carros alegóricos, dança e canto, fazem parte da ocasião festiva. Em todas as comemorações de Ratha-yatra nas diversas partes do mundo, as pessoas presentes ao festival assistem a uma grande variedade de eventos e exibições culturais. As apresentações incluem peças de teatro, músicas, danças, belas artes e exibições primorosa sobre reencarnação, vegetarianismo e ciência védica. Além disso, às centenas de milhares de visitantes é servido um autêntico banquete contendo diversos tipos de preparações
Adaptado de http://pt.krishna.com/main.php?id=396













Jagannatha, Baladeva e Subhadra


Ocorrido em 01/02/2009, em Salvador esse festival ganha tons e sabores especiais.


















O Ratha-Yatra é um festival de rua de origem indiana e que ocorre em várias partes do mundo.

Este é tão antigo que antecede a existência do subcontinente Índia. Em Salvador, cidade plural na qual se multiplicam os cortejos e festas de largo, a ISKCON-Bahia realiza o Desfile de Carro. O grande e colorido carro de madeira do Festival Ratha Yatra, decorado com flores, puxado por cordas pela orla.

A festa que começou tranquila, logo ganhou o rítmo dos tambores e o axé da Bahia, com carro de som e tudo mais. Propositalmente, a festa ocorre no circuito contrário ao carnaval da Bahia, seguindo de Ondina até o farol da Barra e foi acompanhado pelo grupo de percussão baiano E2.
Na terra de todos os santos, os indús também recebem sua merecida adoração à moda baiana, como não podia deixar de ser. Esta interação entre a cultura védica “indiana” e a cultura baiana já vem ocorrendo há treze anos.

O público é formado por devotos, simpatizantes (me incluo nessa classe), curiosos e perdidos (os que nem sabiam de nada, vêem o borburio e lá se metem sem saber o que é – ouvi esse relato de alguns) e são levados apenas pelo toque dos tambores, já em clima de carnaval.

Os mantras que são cantados tradicionalmente de foma calma e tranquila, ganham a roupagem axé, no seu mais puro swing, fazendo com que todos pulem ao som dos Hare Krishnas.



O clima é bom, sem a violência que é marca dos carnavais de Salvador e ao fim do trajeto ainda há distribuição de sorvetes, sucos e lanches vegetarianos – deliciosos por sinal. Tem coisas que só se vê na Bahia.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

As primeiras impressões se confirmam

Ontem peguei o ônibus do cobrador de luvas brancas.
Ele realmente é muito esquisito.
Segundas impressões confimando as primeiras.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Homem-placa

Não ando muito animada em escrever não.
Aliás ando é fugindo de transformar em
palavras certos sentimentos e sensações,
e quando as trasformo, to deixando aqui guardadas no íntimo.
Mas voltei hoje pra falar de cotidiano.
Falar de cenas e situações cotidianas é mais fácil,
ou não, quando internalizamos a desgraça de nossos tempos.
Na verdade, estou falando de uma situação que eu, pelo menos,
nunca tinha visto.
E então não sei se é cotidiano, ou se está para se tornar um.
Um homem placa no semáforo. Até ai nada novo.
Mas acho isso horrível. Geralmente esses homens
e mulheres, jovens e até crianças placas são usados
pra fazer propaganda de políticos, imóveis, venda de ouro.
A troco de uma mixaria ficam ali utilizando seus corpos
como mensagem. Prostitutos de um markenting barato.
Por idéias e produtos sem significado para si.
O de hoje agia por causa própria, aqui na cidade de Salvador.
Mas não sei se isso é vantagem.
Trazia a seguinte mensagem:
S.O.S. Preciso de um emprego.
Edvaldo. 8871-8923
( nº fictício aos desavisados)
Que pedido de socorro. Verbalizado na mensagem.
E escancarado no corpo.
Exposto ali, para comentários, piadas, piedade,
oportunidades, quem sabe?
E exposto aqui em meu blog porque,
Edvaldo, eu precisava falar de você,
que mexeu comigo nessa manhã de hoje.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A peleja do vento com o coração (sotaqueando em cordel)

E tudo era coisa natural.
Mas se o vento soprasse,
não havia menina que não balançasse.

E mesmo o que parecia sólido como pedra,
se desmanchava no ar na loucura
que se permitem os deuses.

Os prazeres do vento são múltiplos,
quem é que não quer se folha pra voar,
nem que seja um instante a contar.

Pois bem, não sei bem o que foi que houve,
mas um vento estranho bateu por essas terras.
Se veio do mar, quem saberá?
Mas que está cheio de mistérios e encantos, ah tá!
Se os búzios poderão explicar, talvez.
Ponhamos os dias a contar.

O que está sucedendo aqui eu agora vou falar,
é que coração que batia certo,
um pra lá e outro pra cá,
deu agora pra descompassado andar.
Bate um pra lá e falha na hora de voltar.
Pingo d'água deu nó e os sentimentos bagunçaram que só.
Ainda dizem os cablocos que essa é a graça da vida,
pois além de ar e comida, precisa de amor, viola e poesia.

Me diz então cabloco, se com o gozo do vento,
fico inteira e aguento.

Cabloco responde de longe, rindo-se da menina desesperada.
-Finda a tempestade se atente, pois logo que a poeira
se assente, as coisas em ordem vão ficar
e enquanto isso, menina, é rir pra não chorar.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Sexta Feira

Semana cheia. Mil coisas a fazer, a pensar, a produzir...
Uma daquelas semanas que você se vê de pijama, e não sabe se está indo
dormir ou acabou de acordar...
E num piscar de olhos, mas com o corpo já no pó da rabiola,
chega a sexta-feira a noite. Finalmente algumas horinhas livres!
Daí, você toma um banho mais demorado, consegue até se olhar no espelho.
Sozinha em casa.
Coloco um som. Isso, som é muito efetivo nesses momentos.
Quanto mais alto, melhor. Canto vigorosamente junto.
Rede. Quer coisa melhor que rede? Pronto, já tinha o som, a rede e
sim, cigarros!
Acendo um cigarro. Impressionante.
Como pode no tempo de um cigarro pensar
tanta besteira e coisa desconexa junto.
No mísero tempo de um cigarro.
Daí o cigarro chama a cerveja.
Sim, afinal, de cara limpa não dá pra encarar o cansaço da sexta-feira à noite.
Fome... Para os sem pique de cozinhar, macarrão resolve.
Comer sozinha? Não. Ligo a televisão, mas não desligo o som.
Fico com os dois. Assisto um pouco de novela.
Tão fácil acompanhar os problemas assim da novela, né?
Se resolvem fácil, dá pra engolir pronto.
O tempo de tv, a tôa assim, não ultrapassa o da refeição.
A rede volta a me olhar com olhares volupiosos.
Mais uma cerveja, cigarros.
E pronto, o melodrama começa a tomar conta.
Essa mulher melodramática que mora dentro de
mim (mas que eu juro não tem nada haver comigo)
toma conta e me torna visceral.
Flor da pele.
Sente tudo. Ama. Não se aguenta dentro de si.
E é claro, sempre que esse ser se manifesta, a chance de
fazer alguma cagada é certa, porque essa
melodramática quer resolver tudo.
Mas óbvio, é uma inconsequente,
até na política ela se meteria assim.
Dai vai pro blog e escreve sobre o vazio, porque
mesmo com o som nas alturas, o cigarro, a cerveja
e os pensamentos desconexos, o vazio ronda.
Impressionante. Como pode caber tudo de vez?
Por fim cai morta de cansaço. "dorme gente fina e acorda pinel"
como diria Chico.
Sim, acordou com vontade de ser atriz.
Queria fazer uma esquete desses cotidianos infelizes
e comuns. Mas logo esquece. Há coisas mais importantes
por hora.
Mas o quê era mesmo?

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Sobre o vazio

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quando tudo passa, e sobra somente......................................................................................
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..................................................................................................................................................o vazio!

sábado, 1 de novembro de 2008

Sísifo

Me sentindo Sísifo em meio as obrigações, na pedra diária que tenho que empurrar ladeira acima.
O cansaço e a falta de tempo faz com que não esteja conseguindo escrever muito, mas os pensamentos não param, nos pequenos momentos, dentro do ônibus, tomando banho, enfiando o garfo na boca, e por isso me sinto Sísifo, que desafia os deuses por não desistir de pensar, seja como for...
Me deu vontade de dividir duas frases boas de minha semana, a primeira veio de uma palestra muito boa que assisti, é o paradoxo de Gramsci," Viver numa época em que a velha ordem agoniza (levando consigo a civilização) enquanto a nova ordem parece não ser capaz de nascer. Mas, ao menos, pode ser noticiada".
A outra li no blog de Maíra, uma amiga que anda longe, http://cinetextos.blogspot.com/, achei a frase muito boa, é de Abílio Hernandez: “na literatura, de tempo em tempo temos um espaço e no cinema de espaço em espaço construímos um tempo”. Simples e perfeita, não?
Sim, e esses tem sido temas recorrentes em meus pensamentos, questões referentes a crise de nossos dias e nosso estranho tempo! O tempo se perdeu no nosso referencial, já teve épocas em que a humanidade pensou que controlava o tempo, inventou relógio e tals, mas quem ainda pensa em controlá-lo é mais louco que ele, pois ele tem se esvanido de uma maneira bem fora de nossos controles. E daí ficamos reinventando ele e as maneiras de lidar com ele, tentando enquadrar nossa rotina, quase de forma escrava para satisfazê-lo.
E essa nova ordem, de dias e tempos novos, que não chega nunca. Inventamos disco voador vindo pra terra pra nos salvar, teorias, planeta chupão, fim dos tempos, apocalipse. Eu própria me apego a isso pra esperar essa mudança...juro que queria fazer com meus próprios braços, mas não sei. Então sento e espero, ouço todas as teorias, acredito em quase todas num desespero sem palavras para que essa nova ordem chegue logo e como no paradoxo, tem dias que agonizo, quase morro.
Mas como não morro, no dia seguinte continuo empurrando a pedra morro acima até o limite de minha resistência. Observando a inutilidade de trabalhos mil, mas pensando, sempre, em todo e qualquer segundo de tempo. E que me perdoe Zeus, mas vou adiante.
E você Senhor Tempo, bom com você eu me entendo diretamente. Ainda acertamos nossos relógios de acordo com a sua, ou com a minha imaginação, com a sua, ou com a minha loucura.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Velha

Hoje, queria um marido de barbas brancas, filhos criados, uma casa à beira mar rodeada por árvores e um computador.
Ia ficar somente a escrever minhas impressões do mundo, como quem mais nada tem haver com ele.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Pequenos cotidianos

Cabelos oleosos, bem grisalhos. Sombrancelhas largas e grossas, engraçadas, com pêlos apontando para mim.
Redundante e cheio de trijeitos.
Vira e mexe, esquece o zíper da calça aberto.
Em certo ponto de sua fala, começa a acumular aquelas coisinhas brancas ao redor da boca.
Mas hoje teve um novo elemento.
Fez a barba e esqueceu um tufo de pêlos no meio da bochecha direita. Pêlos grandes, lisos e brancos.
Tentei, juro que tentei me concentrar no que esse professor falava. Mas, de repente o tufo de barba saltava aos meus olhos bem na frente das palavras e daí só conseguia perceber que a boca dele continuava mexendo, mas as palavras não faziam mais o menor sentido pra mim.
Mesmo porque o pensamento já estava aqui, no que ia escrever aqui.
OH Zeus!
O resto da aula foi uma tortura. Tive que dar tudo da minha concentração: 1. Para não morrer de rir olhando pra ele; 2. Para conseguir parar de olhar compulsivamente para o tufo de pêlos e
3. Para ver se conseguia aprender alguma coisa, qualquer coisa nessa altura do campeonato já era válido.
Usei diversas técnicas, de tentar só ouvir olhando pra baixo, de olhar para o tufo e esquecer que era engraçado, de prestar atenção só na boca....aff, cansei. Que inferno que foi.



Ah, aproveito pra mostrar o lado de fora da sala de aula, é na praça Piedade, é linda cheio de prédios históricos...cheio de pombas, pessoas e fatos bizarros. Comércios informais, mendigos, gente tomando banho nas fontes, propaganda eleitoral, encontro de familiares que procuram seus entes desaparecidos. Tem de tudo é só procurar.














Essa ai pega a fonte de tantos banhos e a faculdade de economia (dessa matéria que faço) ao fundo, olha eu ali na janela!









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Notícia triste.

Hoje vi a menina do vestido xadrez na faculdade de arquitetura.
Quase não a reconheço, ela finalmente estava sem o vestido xadrez.
Aiiii que decepção, já sabia mas não queria acreditar que ela tinha outras roupas.
Essa era uma calça league preta, blusa preta e chinelo de salto branco,
muito sem graça comparado ao vestido xadrez e as botas.
Foi frustrante, pensei em nem contar aqui pra não estragar a personagem, mas não me senti justa.
Tá ai a informação.

sábado, 11 de outubro de 2008

Queria ter certeza.
Mas nas certezas não se vive,
Não há vida sem descobertas.

Des-coberta, estado de deriva?